NEM TRUMP, NEM MADURO – Autodeterminação para os povos de Abya Yala.


A intervenção imperialista de Donald Trump em Caracas acende um alerta para todys habitantes de Abya Yala. Estamos sob a ameaça de uma nova onda colonialista, liderada por um fascista, megalômano e pedófilo. Esses novos ataques buscam perpetuar o incessante e insustentável crescimento econômico que beneficia uma pequena elite enquanto destrói nossos hábitats e coloca em xeque toda a vida no planeta. Em vez de buscarem a abolição do consumo de combustíveis fósseis para tentar mitigar os efeitos das mudanças climáticas, as grandes potencias mundiais – inclusive as que dizem apresentar uma alternativa ao capitalismo – buscam consolidar o controle das últimas grandes fontes destes combustíveis. E para isso usam a guerra, ou seja: aumentam ainda mais a emissão de gases de efeito estufa, geram mortes diretas e condenam as futuras gerações a um futuro ainda mais sombrio.

Mas, ao contrário de outros setores das lutas populares, não vamos defender Maduro. Maduro é mais um líder autoritário de um estado colonial em terras roubadas dos povos originários.

O mundo não é binário, e nossas escolhas não precisam ser.

Mas também não optamos por uma “terceira via”, escolhemos múltiplas vias. Que cada  povo, comunidade, favela, quilombo, possa livremente escolher seu próprio caminho, ter garantida a sua autodeterminação e contar com a solidariedade das demais.

Nossa posição parte da terra. Não de Estados, não de governos, não de projetos desenvolvimentistas. A terra não é mero palco de disputa entre potências. Não é ativo estratégico, não é reserva energética, não é “recurso natural”. A terra é território vivo, é relação, é memória, é sustento material e espiritual dos povos que a habitam.

Os territórios controlados pelo Estado venezuelano não são habitados por um único povo, mas por diversos povos diferentes com seus respectivos modos de vida: comunidades indígenas, camponesas, ribeirinhas, periféricas e urbanas que vivem as consequências diretas da exploração, da militarização e da destruição ambiental. São esses povos que pagam o preço tanto do imperialismo estadunidense quanto dos Estados nacionais que governam em nome do progresso. A “Venezuela” e todos outros países à sua volta são criações do colonialismo para nos dividir e controlar os territórios. Não há fronteiras no mundo que queremos.

A defesa abstrata da “soberania nacional” apaga essas vidas. Em nome da soberania, Estados reprimem comunidades, criminalizam resistências territoriais, expandem o extrativismo e aprofundam a devastação ambiental. A soberania do Estado se impõe contra a autonomia dos povos.

Mesmo quem possa vir a defender uma suposta “Soberania popular” precisa entender o quanto esse conceito é diferente de um Estado. O Estado moderno, democrático ou autoritário, é uma estrutura intrinsecamente ligada ao Capitalismo. Experiências que dizem confrontar esse modelo ao mesmo tempo que mantém a mesma dinâmica do Estado Nação acabam por reproduzir a lógica da opressão sobre o povo que habita o território dominado e mantido “unido” pela força.

Quando um Estado proclama “soberania” sobre um território, as pessoas que coabitam este território, e que muitas vezes o fazem desde muito antes da existência da figura do Estado, ficam submetidas aos desejos de quem está no comando, seja por um período pré definido ou de maneira vitalícia. Na estrutura do Estado moderno isso está institucionalizado na figura do Governo, seja ele autoritário ou alegadamente democrático.

Nossa luta não é pela soberania de Estados sobre territórios, mas pela autodeterminação dos povos sobre suas terras. Autodeterminação significa poder decidir coletivamente como viver, como produzir, como cuidar e como se relacionar com o território — sem imposições externas, sem governos centralizados, sem exploração.

Não há maneira de governar um Estado sem reproduzir a lógica do Capitalismo. Que explora a população e os chamados “recursos naturais” do território ocupado. Que oprime e priva os povos desse território de sua liberdade e autodeterminação.

Não há anticapitalismo na exploração de combustíveis fósseis. Mesmo que isso seja sob a alegação de “riqueza” para os povos que coabitam o território de onde se retiram esses “recursos” que acabam sendo destinados para a grande estrutura Capitalista global. Não há, pois a finalidade é Capitalista: lucro, acumulação, exploração.

Em um mundo atravessado pela catástrofe climática, defender a terra é defender a própria possibilidade de futuro. Não existe libertação possível baseada na destruição dos ecossistemas. Não existe justiça social sem justiça climática. Não existe emancipação quando a vida é sacrificada para sustentar a economia global capitalista.

Por isso, nossa solidariedade é com as resistências territoriais, com quem defende a terra no cotidiano, com quem enfrenta tanto o capital transnacional quanto os Estados que o administram. É dessa luta concreta, enraizada nos territórios e nas comunidades, que nasce qualquer projeto real de liberdade.